Um Lápis contra Mil Milhões

No dia 23 de Setembro, na aldeia de Miumba, no município histórico da Cahama (província do Cunene), vi o retrato cru da educação em Angola. Uma turma de crianças, sentadas debaixo de uma árvore, assistia a uma aula de Matemática. A professora desenhou casas no quadro e pediu que as pintassem. Mas ninguém tinha lápis de cor. Algumas crianças nem sequer tinham um lápis simples. Os poucos que havia eram pedaços gastos, tão curtos que riscar uma folha parecia desperdiçar ouro.

São três turmas, debaixo das maiores árvores da comunidade. Os círculos de pequenas pedras à volta das árvores marcam os espaços nos quais as crianças se devem sentar.

Essas crianças, filhas de comunidades pastorais, vivem numa Angola que ainda não chegou até elas.

Cada traço dessas crianças era um acto de resistência, cada risco no caderno um grito silencioso contra o abandono. Cada partilha de lápis – com a colega sem nenhum – era um verdadeiro testemunho de solidariedade. Miumba é um lugar onde, mesmo sem lápis, nasce a vontade de escrever um amanhã diferente.

Essas crianças são a verdadeira metáfora do país: inteligência e vontade, sufocadas pelo abandono. Se não conseguimos garantir um lápis, de que serve falar em modernidade, digitalização e futuro?

É esta a realidade da educação primária no país: um sistema incapaz de garantir o mais básico instrumento de aprendizagem — um lápis. Tudo isto num Estado rico em petróleo, diamantes e outros abundantes recursos naturais, onde se gastam milhares de milhões em obras faraónicas e em viagens presidenciais.

Ali, debaixo da árvore de Miumba, está a contradição mais cruel da nação: a miséria não é fruto da falta de meios, mas da falta de prioridades. Angola não é pobre; são os angolanos que são empobrecidos por uma governação que os abandona.

Ali, debaixo da árvore de Miumba, está a verdade nua da nação: a falta de justiça, uma governação sem juízo, desumana.

Veja-se o custo das deslocações de João Lourenço, investigadas pela Angola Open Policy Initiative e publicadas pel’O Novo Jornal. Em oito anos, terá visitado cerca de 50 países, num total de quase mil milhões de dólares gastos em viagens que mais parecem peregrinações turísticas à custa do sofrimento do povo.

Bastaria ao presidente prescindir de duas dessas viagens turísticas luxuosas, reduzir o séquito que o acompanha e redirecionar os fundos. Seria o suficiente para garantir que todas as crianças das comunidades marginalizadas tivessem pelo menos um lápis e um caderno.

O contraste é brutal: de um lado, crianças a aprender a pintar sem cor, a geometria da sobrevivência, sem futuro; do outro, a ostentação de uma Presidência errante, desconectada da realidade do país.

A educação em Angola não pode continuar a ser um deserto. O direito a aprender não se pede: exige-se.

Comentários