Nova Cimangola, Novos Colonos
No seu discurso sobre o Estado da Nação, o presidente disse: “No dia 11 de Novembro, o povo angolano celebrará 50 anos de independência. Celebramos 50 anos de existência como Estado soberano, 50 anos como povo livre e dono do seu destino, 50 anos livres do jugo colonial, da discriminação e da opressão.”
Como muitos angolanos observaram, no seu monólogo de três horas e meia – arrogante e desconectado da realidade –, o presidente apenas transmitiu autoritarismo.
O povo angolano não é livre e nem é dono do seu destino. Continua amarrado ao jugo colonial, da discriminação e da opressão. A gestão da Nova Cimangola, a cimenteira tutelada pelo Estado angolano, é disso um claro exemplo. Esta empresa tem, na sua estrutura accionista, membros do Bureau Político do MPLA.
Após o arresto, em 2020, da participação maioritária da Ciminvest (49%), empresa detida por Isabel dos Santos, o Estado passou a deter o controlo absoluto da empresa, ao acrescentar esta quota arrestada à sua participação de 39%, passando a deter 88% do capital da empresa.
Porém, em vez de esta participação do Estado ser um símbolo de soberania económica, a empresa tornou-se um espelho do neocolonialismo interno: um Estado independente que se comporta como colónia dos seus próprios dirigentes e dos estrangeiros que estes contratam a peso de ouro.
Um novo sistema colonial de castas
Enquanto mais de mil trabalhadores angolanos recebem salários modestos, uns meros 70 expatriados acumulam mais de 13 milhões de dólares anuais, entre salários e bónus. É um valor superior ao custo total da força de trabalho local. Qual é a causa deste apartheid laboral?
A pergunta é inevitável: por que razão uma empresa controlada pelo Estado angolano depende de tantos estrangeiros bem pagos, quando há mão-de-obra nacional qualificada e desemprego crónico?
Vejamos o caso do chefe de refeitório. João Miguel Caseiro, de nacionalidade portuguesa, aufere cerca de oito mil dólares mensais. Provavelmente, o chefe do Hotel Ritz, o mais caro de Portugal e onde o Presidente angolano se hospeda, não ganha tanto. O próprio João Lourenço ganha o equivalente a 1600 dólares mensais, apesar de gastar cerca de mil milhões de dólares nas suas viagens internacionais. O mesmo se pode dizer de Nuno Alexandre Melo, gestor português responsável pela manutenção dos jardins da cimenteira, que leva mensalmente para casa mais de oito mil dólares. Não há, em Angola ou em Portugal, angolanos qualificados para serem chefes de refeitório ou chefes de jardinagem?
A justificação oficial remete para a “experiência internacional”. Mas funcionários e especialistas no sector discordam. “Parece que nós, angolanos, não sabemos administrar negócios nem fazer o trabalho dos portugueses, o que é ridículo”, disse um trabalhador sob anonimato. O sentimento é generalizado: os expatriados são excessivos, os salários desproporcionais, e as contratações, muitas vezes, desnecessárias.
Expatriados privilegiados, nacionais excluídos
De acordo com a folha de salários dos expatriados, em posse do Maka Angola, o casal português Pedro Mariano Campos e Elsa Maria de Oliveira Careto leva para casa um salário acumulado de perto de 50 mil dólares mensais líquidos, fora um conjunto de subsídios mensais de alto valor. O primeiro é o presidente da Comissão Executiva (PCE) da Nova Cimangola, enquanto a esposa é a directora de imagem corporativa e tecnologias de informação da referida empresa.
Na Nova Cimangola, além dos expatriados portugueses, há um grupo significativo de directores hispânicos provenientes da Colômbia, de Cuba, do México e da República Dominicana. O director comercial, German Carrillo Romero, de nacionalidade colombiana, aufere o salário mais alto: 26,6 mil dólares mensais.
Por sua vez, pela parte portuguesa, os directores dos recursos humanos e do gabinete jurídico, os cidadãos portugueses Hugo Miguel Pinho Horta e André Manuel Pimenta Diogo Barreiros, recebem, respectivamente, acima de 22 mil dólares mensais, um total de 44 mil dólares mês. O director de compras, Luís Miguel de Almeida Raposo, recebe 15,4 mil dólares mensais. Estes são os salários mais altos da lista de expatriados portugueses, que inclui o responsável do refeitório, João Miguel Machado de Oliveira Caseiro, com um “salário módico” de oito mil dólares.
Um jurista angolano classifica a tabela salarial dos expatriados da Nova Cimangola como “um insulto pornográfico à soberania nacional”.
“A Nova Cimangola precisa de um jurista português para dirigir o seu gabinete jurídico? Qual é a qualificação que ele tem e que muitos angolanos formados em direito nas melhores universidades portuguesas não têm? As suas qualificações são superiores?”, questiona o jurista, que prefere o anonimato.
Por sua vez, os chefes de departamento, de nacionalidade estrangeira, auferem em média 12 mil dólares mensais, ao passo que os poucos angolanos que desempenham estes cargos ganham cerca de dois milhões de kwanzas por mês, seis vezes menos do que os seus homólogos estrangeiros. “Se a empresa é assim tão rentável, porque que não paga o mesmo aos funcionários angolanos? Isto é exploração do homem pelo homem”, denuncia o jurista acima mencionado.
A excepção aplica-se aos membros do Conselho de Administração, normalmente indicados por ligações políticas, que auferem salários quase iguais aos dos expatriados. O administrador Manuel da Silva Pacavira Júnior é quem mais recebe, com uma mensalidade equivalente a 18 mil dólares. Por sua vez, Alice Paula Neves, indicada pelo Ministério das Finanças, ganha o equivalente a 17 mil dólares. Também há três directores angolanos com bons salários. Um deles é Paulo Lukeny Pacavira, identificado como filho do administrador Manuel Pacavira Júnior. Ganha o equivalente a 16 mil dólares e responde pela Direcção de Projectos Especiais, Segurança e Gestão Ambiental (SIGA) e Sistema de Gestão de Qualidade (SGQ).
Libertação teórica, dependência real
O caso Nova Cimangola é apenas um microcosmo do neocolonialismo do MPLA. O presidente do seu Conselho de Administração é Agostinho da Rocha Fernandes da Silva, membro do Comité Central do MPLA, que recentemente exerceu os cargos de vice-governador do Bengo e de Cabinda.
Em vez de desmantelar o sistema colonial, o partido no poder apropriou-se dele, substituindo o colono branco pelo oligarca nacional, e o império português por redes privadas de exploração transnacional.
As empresas públicas tornaram-se feudos de clientelismo, administrados directa ou indirectamente por estrangeiros e rentistas políticos, enquanto os angolanos comuns continuam condenados à pobreza.
Ironicamente, no mesmo discurso em que exalta “50 anos de libertação”, João Lourenço vangloria-se de que Angola tem 106 universidades e 330 mil estudantes no ensino superior.
Mas de que serve este número, se as empresas do Estado contratam portugueses para dirigir recursos humanos, departamentos jurídicos e refeitórios, mexicanos e colombianos para gerir projectos?
O que se celebra, afinal, senão meio século de farsa?
Neocolonialismo e fuga das elites
Enquanto isso, as elites do regime vivem um duplo padrão de soberania.
Portugal tornou-se o refúgio dos herdeiros do poder angolano – o mesmo país colonial de outrora, onde agora possuem moradias, empresas e nacionalidade dupla.
Vivem lá à custa do erário angolano, gastam sem restrição — e são respeitados apenas enquanto consumidores endinheirados.
Mas quando chega a hora da integração, Portugal ergue o muro do preconceito, alimentado por uma onda crescente de xenofobia e ressentimento anti-imigração.
A ironia é brutal: aqueles que se dizem “libertadores” fogem da pátria que governam e financiam o racismo que um dia disseram combater.
Conclusão
A Cimangola simboliza a independência traída.
Cinco décadas após 1975, Angola é um país livre apenas no hino e na bandeira.
O poder económico continua concentrado nas mãos de uma elite partidária que fala a linguagem da libertação, mas pratica o colonialismo do capital, sustentado por técnicos estrangeiros e intermediários milionários.
O MPLA, em vez de descolonizar o Estado, colonizou a liberdade, transformando-a num negócio de poucos e num fardo para milhões.
A verdadeira libertação – a do povo angolano – ainda está por acontecer.
E só começará quando as Cimangolas do país forem devolvidas à nação, e quando o mérito e a dignidade humana deixarem de ter passaporte estrangeiro ou cartão de militante partidário.
