Censo de 2024: Um Desastre Anunciado
Realizado entre Setembro e Novembro de 2024, o segundo Registo Geral da População e Habitação (RGPH) deveria ter tido os resultados preliminares divulgados em Maio de 2025. Até hoje, porém, faz-se silêncio. Um silêncio ensurdecedor, considerando os mais de 50 mil milhões de kwanzas investidos — dos quais 37,3 % foram alocados à compra de tablets para o primeiro censo digital — e a mobilização de mais de 92 mil técnicos.
Este texto reúne testemunhos de recenseadores, técnicos e cidadãos, e evidencia que a contagem da população — pilar de qualquer política pública eficaz — foi, uma vez mais, negligenciada e manipulada.
Sob a coordenação do ministro de Estado e chefe da Casa Militar, general Francisco Furtado, o processo falhou em praticamente todas as suas etapas. A cartografia — que deveria ter sido concluída dois anos antes — terminou apenas três meses antes da primeira data prevista para o início do censo, a 19 de Julho.
Os recenseadores foram recrutados e treinados fora dos prazos, muitos sem formação mínima nem sequer contacto com os equipamentos de trabalho. Houve ainda interferência política, com listas partidárias substituindo técnicos capacitados.
Relatos internos revelam desorganização, má gestão de recursos e desrespeito total pelas condições mínimas de trabalho das equipas no terreno. Alimentação, alojamento e segurança foram ignorados — ao mesmo tempo que milhões eram gastos em tecnologia mal implementada.
Descaso com a população
A governação do presidente João Lourenço tem-se revelado errática, elitista e desligada das necessidades reais da população. As decisões tomadas em resposta às necessidades da população angolana apenas têm conduzido ao agravamento da sua condição socioeconómica.
O exemplo mais recente é a subida do preço do gasóleo, que fez disparar o preço dos táxis privados (vulgo, candongueiros), o único meio de transporte acessível à maioria dos cidadãos, já aflitos com os baixos salários e o alto custo de vida. Em oito anos de poder e com gastos de centenas de milhões de dólares no sector dos transportes, o presidente não conseguiu criar sequer uma rede de transportes públicos funcional em Luanda, que concentra um terço da população angolana, para garantir a sua mobilidade.
Portanto, mais do que o censo, a governação requer dirigentes preparados, competentes, abnegados, que saibam ouvir as críticas, que acolham as contribuições da sociedade e demonstrem amor ao seu povo e à pátria. É isso o que mais falta.
Censo de faz de conta
Tomás António, residente no Zango 8000, em Luanda, viu o selo do censo colado à sua porta, como validação de que o seu agregado familiar fora recenseado, sem que isso tenha acontecido. “No edifício onde vivo, de 12 apartamentos, e em outros edifícios da zona, o procedimento foi o mesmo. Colaram os selos às portas, disseram que regressariam para realizar as entrevistas aos agregados familiares e nunca mais os vimos.”
No Luena, província do Moxico, também há relatos semelhantes. “Vivo no bairro Txifutxi, uma zona nobre da cidade, onde os recenseadores só passaram em algumas casas. Na minha rua, nem sequer colocaram os selos. Simplesmente não passaram. Imaginem agora nos bairros periféricos e nas aldeias”, desaba Nelson Mucazo.
“Um dos principais problemas com o recenseamento geral foi a falta de seriedade de muitos recenseadores, que colocaram os selos nas residências e não regressaram para realizar as entrevistas sobre o agregado familiar”, indica fonte da Comissão Multissectorial de Apoio à Realização do Censo (CMARC). O nosso interlocutor explica que a primeira fase do recenseamento geral consistia na confirmação da residência e do respectivo número total de habitantes e a segunda, na entrevista com o responsável do agregado familiar. “Não havia pessoal suficiente para a supervisão dos recenseadores e, por falta de capacidade de fiscalização, tivemos esse problema, sobretudo em Luanda”, concretiza.
Por sua vez, o cartógrafo José E. revela que “o censo foi uma desorganização total. O processo só correu bem na TPA [Televisão Pública de Angola]”. O processo de formação dos recenseadores correu mal em algumas zonas, com o recrutamento de muitos formadores “paraquedistas das fileiras da JMPLA” – explica –, sem conhecimentos de geografia, cartografia e/ou informática, fundamentais para o processo. Além disso, refere a inclusão de muitos recenseadores no último minuto, sem que tenham participaram em nenhuma formação.
A nível nacional, ainda segundo o cartógrafo, houve a falha de integração de cartógrafos na distribuição dos recenseadores por zona censitária: “Inúmeros grupos de recenseadores desconheciam o método da serpentina, de recolha de dados nos bairros periféricos. Isso criou vazios na recolha de dados.”
A consolidação, no seio da sociedade, da falta de confiança no governo originou algumas formas de protesto contra o censo. A recenseadora Vanda conta que, nos Lotes do Prenda, em Luanda, houve uma grande confusão: “Em alguns edifícios, os moradores uniram-se para impedir a entrada dos recenseadores. Testemunhámos casos em que recenseadores foram apedrejados pela população, insatisfeita com o modo de governação.”
“Não sei onde o governo vai apresentar os resultados estatísticos do censo. Onde irá buscar os dados para apresentar? Inventará dados?”, questiona Vanda. “Muitos recenseadores não fizeram o seu trabalho propositadamente, desmotivados por causa da desorganização, sem terem sequer direito a uma garrafa de água para beber durante horas de trabalho. Só Deus nos segura, o resto é só desorganização”, lamenta.
Em Kalotchelen, no município do Cubal (Benguela), as comunidades locais repeliram os dois primeiros grupos de recenseadores enviados para fazer o registo, em protesto por alegadamente terem sido enganados pelo governo, que havia prometido integrá-los nos pagamentos do Kwenda.
Após várias conversas com as autoridades tradicionais locais, o terceiro grupo teve permissão para realizar o seu trabalho, sob tensão. Tiago Tchimbassi, um dos supervisores destacados em Kalotechelen, descreve como ao sexto dia dois dos seus colegas “fugiram da localidade, após terem recebido ameaças de morte”. De acordo com o nosso interlocutor, no dia seguinte – uma semana antes do termo previsto –, todos os recenseadores abandonaram a localidade.
Tchimbassi, que antes supervisionou outra equipa na comuna de Tumbulo (Cubal), conta que “alguns colegas não sabiam fazer entrevistas, nem sequer manusear os tablets. Também encontrámos muitas casas que não tinham sido mapeadas pela cartografia”.
“Houve muita batota na selecção dos recenseadores. Tive conhecimento de listas saídas dos CAP (Comités de Acção do Partido MPLA) para substituir os recenseadores que tinham sido treinados. Isso criou muita frustração. Os dirigentes ignoraram a importância do Censo. Por isso, não há confiança nos dados recolhidos”, desabafa.
Tchimbassi fala das condições a que foram submetidos. A administração municipal apoiou o seu grupo de dez membros, com dez quilos de arroz, três quilos de feijão, cinco litros de óleo, peixe seco no valor de cinco mil kwanzas e dois quilos de açúcar para um período de 15 dias de trabalho. “Da organização do Censo não recebemos nenhum apoio para alimentação, nem para acomodação. Por cima disso, reduziram-nos em 20 mil kwanzas do valor acordado dos pagamentos. Foi triste”, conta.
Para esconder o fracasso, o Instituto Nacional de Estatística (INE) recorre agora ao Inquérito de Cobertura — originalmente destinado à verificação de qualidade — para tentar reconstruir uma base de dados a partir de informações comprometidas.
“O tratamento da informação está a ser feito com a assistência do FNUAP [Fundo das Nações Unidas para a População]”, diz a fonte da CMARC.
Será possível que as Nações Unidas apoiem o processo de maquilhagem dos dados, do desastre?
Conclusões
Com este censo, a fonte da CMARC manifesta-se optimista, considerando que Angola terá “a maior base de estatística, na região austral, em termos populacionais”.
Já o especialista consultado pelo Maka Angola é pessimista: “Em princípio não haverá como apresentar os resultados. Se tal for feito, será uma grande trapalhada, pois as incongruências serão facilmente apontadas.”
A promessa de que Angola teria a maior base de dados estatísticos da África austral parece, no mínimo, ilusória. A realidade aponta para um censo de faz de conta, com dados frágeis e sem credibilidade técnica. Num país onde a confiança entre governantes e governados está profundamente abalada, a manipulação ou omissão de dados populacionais é mais um golpe na democracia e no planeamento racional.
O fracasso do Censo de 2024 não é apenas técnico — é político. Ele expõe a fragilidade de uma liderança que, em vez de servir o país com competência e transparência, opta por perpetuar uma cultura de mediocridade, improviso, partidarismo e irresponsabilidade.
A contagem da população — um acto essencial de cidadania e soberania — foi reduzida a mais um exercício de desorganização institucional. A Angola que precisa de ser planeada, essa, simplesmente não entrou nas contas.
